Aprender a errar
Como a cultura da avaliação transforma a falha em medo
Fiquei mais de um ano sem conseguir escrever e publicar aqui. Ou talvez fugindo da escrita. Apesar de muita coisa ter acontecido nesse período — duas mudanças de casa, problemas financeiros, volta à terapia — hoje percebo que não foi falta de tempo. Foi medo do olhar dos outros. Sem postar, seja no Substack, no Instagram, no TikTok, etc., ninguém vai julgar o meu valor, não é mesmo?
Em O Show do Eu, livro que sempre indico, escrito por Paula Sibila, ela cita: “Mais do que um conjunto de imagens, o espetáculo se transformou em nosso modo de vida e visão de mundo, na forma como nos relacionamos uns com os outros e na maneira com que o mundo se organiza”. (p. 74)
O eu que escreve e publica também é o sujeito que consome, legitima e faz o outro existir nessa esfera. Nossa existência passou a depender do quê e de como o outro vê aquilo que publicamos. É comum ver comentários que avaliam algum conteúdo, como se parte dos espectadores tivesse a obrigação de declarar sua sentença a respeito do assunto. A régua que baliza o que é bom ou ruim, certo ou errado, melhor ou pior, se tornou um dilema na minha cabeça ao ver pessoas avaliando outras abertamente de acordo com a sua própria visão de mundo. Passei a questionar a "qualidade" do que eu produzia e, pouco depois, a mim mesmo. O resultado disso foi uma paralisação.
Foi curioso perceber que comecei a repensar isso justamente quando voltei a estudar. Recentemente comecei uma licenciatura em Artes Visuais e tem sido ótimo para relembrar sobre o aprendizado e a avaliação. Cresci em um sistema de avaliação que mede todo mundo pela mesma régua. Talvez por isso eu também tenha aprendido a me autoavaliar da mesma forma e as redes sociais amplificam essa sensação. Percebi que avaliar e julgar não são a mesma coisa.
A avaliação deveria abrir espaço para aprender. O julgamento apenas encerra a conversa.
E não há aprendizado sem o erro. A forma como a gente se relaciona hoje dá a impressão de que um erro vai fazer com que todo o nosso eu seja julgado. Deixar de escrever (ou desenhar) tem muito mais a ver com o medo de não corresponder à expectativa que construí a partir do olhar do outro. Mesmo que esse primeiro julgamento seja apenas meu. Ao querer sempre performar bem, deixo de aproveitar o processo, de aprender. (devo soar redundante com o tema em textos anteriores).

Percebi também que não existe uma resposta definitiva para o que é bom, certo ou melhor. É o mesmo que ir a um museu e achar que uma obra não tem valor porque alguém disse que consegue fazer igual em casa. E, de qualquer forma, nada vai ser bom, certo ou melhor para todo mundo.
Para mim é quase impossível fugir dessa expectativa de performance num cenário onde a nossa existência é também pautada na presença online. E não falo apenas sobre a forma como vemos as nossas subjetividades, mas também em nosso trabalho, nossas relações e nossas escolhas. Uma vida que depende também dessa espetacularização para não “ficarmos pra trás” e/ou sentirmos que existimos de alguma forma.
Talvez a resposta seja correr contra o fluxo ou fazer as coisas do seu jeito, mesmo que não fique como o esperado ou como esperam. A gente só aprende errando e expor os erros pode ser a melhor forma de criar um jeito onde todo mundo possa errar e aprender. Se a forma de socialização é criar uma autobiografia online, usar essas ferramentas como recurso de registro de vida pode ser uma boa forma de olhar para trás depois e ver como a gente era e como somos hoje. (Ou então apagar tudo e começar de novo, já que temos essa possibilidade de se reinventar, ressignificar e criar nossas narrativas o tempo todo).
“Muitas vezes, o erro pode se constituir no percurso mais curto para o acerto e a verdade.” Ivo José Both, no livro Avaliação Planejada, Aprendizagem Consentida.
Exteriorizar algo com possíveis erros pode ser a forma mais humana de criação e manifestação pessoal. Em tempos de inteligência artificial, com criações pasteurizadas e plastificadas, performar um sujeito real, que erra, é tornar a sua vida mais viva. Fazer com amor, fazer por fazer e errar na tentativa de aprender, não por medo.
Pra gente se inspirar
William Kentridge cria animações em carvão desenhando, apagando e redesenhando a mesma folha várias vezes. Em vez de esconder os apagamentos, ele os incorpora à obra, tornando visível todo o processo de criação. Suas imagens mostram que o erro não é algo a ser eliminado, mas parte do caminho — assim como o aprendizado deixa marcas em quem aprende.
Pra gente se conectar
Rosalía se pergunta quando poderá falhar novamente.
Ananda traz uma metáfora sobre o uso de lápis e caneta na infância e a certeza de que vamos errar.
O livro O Erro de Descartes, do neurocientista António Damásio, que refuta a ideia de que corpo e mente funcionam de forma separada.
O filme A Pior Pessoa do Mundo, sobre uma jovem que lida com incertezas da vida e o peso de possíveis escolhas erradas no amor e na carreira.
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Conforme escreveu Marguerite Duras:
“Escrevi com o corpo, com a ausência, com a vergonha. E quando finalmente me dei o direito de dizer, não escrevi por coragem, mas por necessidade. É assim: há histórias que adoecem se não forem contadas”.
Em outros termos, seja você individuo comum ou artífice da linguagem, ao expressar sua voz, inevitavelmente atrai e repele. Haja visto que o afeto e a aversão são faces da mesma moeda. O essencial é compreender: ao tomar uma posição, alguns se afastam, enquanto outros se aproximam. O ponto decisivo encontra-se em saber responder a si mesmo: você valoriza mais aqueles que chegam, porque veem em você um espelho, uma voz que ecoa o que ainda não conseguem articular? Ou dá mais peso ao barulho daqueles que passam a rejeitá-lo?
Sendo assim a escrita emerge como uma prática que se origina deste recorte do mundo impregnado de narrativas, tal qual as gotas de chuva que escorrem pela vidraça até atingirem o parapeito. De forma análoga, a contemplação da paisagem alaranjada do crepúsculo torna-se viável somente quando nos inclinamos sobre o granito embebido de umidade.
(...)
Nayara Fernandes • Substack "O lado de dentro do olhar" -
https://nayarafernandes.substack.com/p/o-lado-de-dentro-do-olhar
"E, de qualquer forma, nada vai ser bom, certo ou melhor para todo mundo." nossa, vou escrever na minha parede!!!